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O dia em que meu pai me ensinou a ser forte

13 jun, 2017

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Desde que me entendo por gente que eu imagino como seria meu futuro.Lembro que no primário eu imaginava como seria no ginásio, no ginásio eu ansiava pelo ensino médio e no segundo grau eu já tava planejando como seria quando eu passasse no vestibular… Nunca me considerei ansiosa, apesar disso.

Eu não ficava nervosa, eu não perdia o controle do que tivesse nos planos (e nada ficava fora deles) e tudo era, relativamente, fácil. Até que chegou o vestibular. A mudança de opção de curso em cima da hora, a colocação como excedente, o terceiro ano assistente.

Como assim eu não tinha conseguido? Como assim não estava saindo como eu planejei? A frustração de ter que estudar mais um ano pra passar numa Universidade Federal, a sensação de que eu não tinha mais o controle dos resultados do meu “trabalho” e o pior… não ter atendido às expectativas do que me cercavam. Tudo isso resultou num turbilhão de sentimentos dentro de mim.

Meus pais? Vocês podem estar se perguntando se eram eles esses vilões que cobravam tanto de mim. Mas, Não. Não eram eles. Pelo contrário, sempre tive a sorte de encontrar neles um poço de apoio e de compreensão. Ainda lembro da minha aflição que sentir ao acompanhar, pelo rádio, a lista de aprovados na UFS e não ouvir o meu nome.

Desabei em choro. Solucei. Engasguei e o desespero só não foi maior, porque não tinha, ao fundo, uma trilha sonora na voz da Maysa, avisando que meu mundo tinha caído, pois era essa a sensação.

Mas, meu pai… Meu pai foi o primeiro que apareceu na porta do quarto e, ao me abraçar, disse: 

– E tá chorando por qual motivo mesmo? Eu vi que você se esforçou e sua vida não acaba aqui, Leilane. Você tem muito pela frente, muito a viver e aprender. Você só tem 16 anos!

E eu:

– Mas, pai, você não tá decepcionado? E as pessoas o que elas vão pensar? Todo mundo achava que eu iria passar, na igreja, na escola…

Meu pai, novamente e, agora, ao lado de minha mãe:

– Eu não. Eu tô muito orgulhoso de você e Deus sabe o que faz. Quanto aos outros, desde quando o que eles acham importa? O que eles achavam é problema deles, não nosso.

Secaram minhas lágrimas, me levaram pra passear e foi a primeira vez que aprendi a lidar com a controversa opinião alheia: os olhares de piedade; as perguntas que eu não queria responder, mas respondi, e até o sorriso de satisfação no rosto de muitos que, no fundo, gostaram que eu tivesse me “dado mal”. Afinal, a menina que nunca errava, a superdotada da infância, tinha falhado publicamente.

É, o ser humano é assim cruel e não poupa nem as crianças. Sempre foi assim e, muitas vezes, os mais próximos são os que no fundo torcem pelo seu fracasso. 😉

“Passou de ano? Deixa chegar no ginásio. Passou direto? Deixa chegar na oitava série e eu quero ver passar assim. Segundo grau? Deixa chegar os simulados para o vestibular!”. Muita gente quis que eu desse errado (desse errado?). É aquela coisa: o estigma que tinha (e, infelizmente, ainda tem viu?) de que o filho adotivo só vai fazer merda, na vida dos pais, que deram apenas amor e uma família, gerando uma série de arrependimentos. 🙂

E foi nesse dia, no dia que tive a minha primeira decepção, que não correspondi a muitos, que eu aprendi uma lição que moldou muito do que sou hoje, uma lição que nunca esqueci.

Um alguém, bem próximo, se aproximou de mim e disse, num tom que exalava um pouco de satisfação, que era assim mesmo, ninguém era bom a vida inteira e me deu as boas – vindas ao mundo das pessoas “normais”. Eu tinha 16 anos e isso foi  bem cruel. Eu não soube o que responder.

Meu pai, que tinha ouvido tudo, puxou-me pela mão e chamou pra ir embora dali. Enquanto caminhávamos de mãos dadas, em direção ao carro, ele disse:

– Tenha consciência do que faz, do seu esforço e nunca dê ouvidos a essas vozes. O que esperam de você é problema deles e não seu. Eu tô muito orgulhoso de você e fique também. Você aprendeu muito e hoje sabe mais do que antes. Adquiriu experiência, aprendeu a escrever melhor, coisa que você não sabia, e se saiu muito bem na redação, você não tá feliz com isso? Ainda tem uma vida inteira pela frente e não deixe que ninguém que torça contra você, contamine quem você é e o que você quer. Simplesmente, não se importe com a opinião alheia e lembre que você tem sempre a mim e a sua mãe. 

Essas palavras, que talvez ele nem lembre, funcionaram como uma alavanca e, com altos e baixos, eu passei a praticar isso todos os dias e a me tornar cada vez melhor em não me importar com as expectativas de terceiros e a sempre presente torcida do fracasso. <3

Avante.

 

 

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